O Papel da Mulher na Igreja

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O irmão Wanderson Aragão enviou-me um e-mail com a seguinte pergunta: 

Gostaria de saber, bíblicamente, se é permitido à mulher, exercer a LIDERANÇA, AUTORIDADE e ENSINAR na Igreja. Gostaria que o irmão desse uma explicação bíblica sobre esse assunto. Em Cristo.

Minha resposta:

1 Coríntios 14:34 é o texto chave para quem deseja neutralizar a mulher no que diz respeito a liderança eclesiástica. O texto diz: “As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei”. 

A igreja de Corinto, estava localizada em uma região onde a cultura dominante era a cultura grega. Conhecedor que era, dos costumes gregos, Paulo sabia que a mulher, na Grécia antiga, era proibida por lei de falar nos parlamentos ou exercer cargos públicos. Sabemos que não consta nos anais da história que na Grécia alguma mulher tenha subido ao trono, nem que qualquer mulher tenha exercido cargo de comando ou liderança. De famílias ricas ou pobres, as mulheres em Atenas não possuíam direitos políticos. A vida pública não era (ou não deveria ser) espaço para as mulheres. Tanto em Esparta quanto em Atenas, as mulheres não eram consideradas cidadãs. Nos muitos textos que consultei sobre a situação da mulher na cultura grega, a frase que mais me apareceu foi essa: “A mulher grega estava afastada da vida cívica, não recebia educação e ficava trancada em casa.” A inferioridade da mulher e da sua posição pode ser atestada pela Política de Aristóteles que a justificava em virtude da não plenitude na mulher da parte racional da alma, o logos. Observamos inclusive no texto aristotélico, que para tanto faz uso das palavras de Sófocles, que as mulheres deviam, por sua graça natural, permanecer em silêncio, o que é por demais significativo de sua condição numa comunidade democrática, na qual a participação isonômica na política, ou seja, na vida da pólis, caracterizava o ateniense, singularmente nas assembléias deliberativas da Pnix e na ocupação das diversas magistraturas. Jean Pierre Vernant observa mesmo que o que implicava o sistema da pólis era primeiramente uma fantástica preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder. Palavra que não era mais o termo ritual, a fórmula justa, mas o debate contraditório, a discussão, a argumentação (Vernant, 1989: 34). Calar a mulher significava portanto, efetivamente, o mesmo que excluí-la inteiramente da cidadania.

Paulo não tinha o hábito de costumizar através da pregação do Evangelho. Ele não impunha uma cultura como condição para que o Evangelho surtisse efeito. Paulo não era etnocêntrico. Ele respeitava os costumes locais, a menos que determinado costume fosse explicitamente contra a mensagem do Evangelho, como, por exemplo, o paganismo, o fetichismo…

Para que a pregação do Evangelho entre povos diferentes, como era o caso de Paulo e sua equipe missionária, fosse mais eficiente, era preciso contextualizar o Evangelho. Segundo o missionário Jairo de Oliveira, articulista da seção “Choque cultural”, do caderno missionário de Defesa da Fé, contextualizar o evangelho é apresentá-lo levando em conta a cultura receptora, a fim de que a mensagem seja compreendida e se aplique de forma relevante ao cotidiano do grupo em contato. A contextualização pode ser entendida também pela maneira como o evangelho é aplicado em determinado contexto e em resposta aos desafios de sua realidade. É importante destacar que a contextualização não é perda de identidade do missionário ou do evangelho. Pelo contrário, é a tarefa de manejar bem a Palavra da verdade, tornando-a clara e compreensiva e apresentando-a de forma adequada às particularidades culturais e lingüísticas de uma sociedade.

Por isso, para evitar uma rejeição ao Evangelho, pelos gregos, em Corinto, Paulo escreveu-lhes, mostrando a necessidade de observar aquilo que na cultura deles, e na Lei, era relevante e que contrariar tais costumes, poderia atrair as cominações da Lei. Veja que ele usa duas expressões que mostram essa verdade. Paulo usa a expressão “vossas mulheres”, pois ele estava se referindo exclusivamente à igreja localizada na cidade de Corinto e ele usa a expressão “como também ordena a Lei”. Que Lei? – A Lei grega. Ou seja, o texto de 1Co 14:34 , não deve servir como base para formação doutrinária e nem deve ser observado pela igreja, como um todo. No próprio texto existem demonstrações claras que aquela parte da Epístola era aplicável àquela comunidade.

Nós sabemos que as práticas culturais não estão acima da Bíblia e não compõem o alicerce em que o conhecimento bíblico deve ser construído. Pelo contrário, a Bíblia é o alicerce e o crivo para que se rejeite ou permita que os aspectos da cultura sejam assimilados ou rejeitados. À medida que o Evangelho vai sendo recebido e compreendido, os aspectos culturais que contrariam a vontade de Deus, vão sendo modelados e sutilmente alterados.

No caso da mulher poder ou não exercer liderança na igreja, a Bíblia mostra que em outras igrejas elas exerciam, sim, papéis preponderantes. Em 1 Timóteo, Paulo estava ditando a Timóteo o perfil de um obreiro: “Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar”. Lá no versículo 11 ele fala uma coisa que ninguém quer ver, mas que está lá. Paulo diz: “da mesma sorte as mulheres sejam honestas, não maldizentes, sóbrias e fiéis em tudo”. Tá no mesmo contexto. Paulo está dizendo que assim como os homens que desejam o episcopado precisam preencher determinados requisitos, da mesma sorte as mulheres. Em quase todas as epístolas, Paulo faz referência às mulheres como cooperadoras da obra de Deus em determinadas comunidades.

Historicamente, temos exemplos de mulheres que são conhecidas pela liderança que exerceram e pelo excelente trabalho que realizaram frente à obra do Senhor, como é o caso de Aimée Mcpherson, fundadora da Igreja do Evangelho Quadrangular, denominação evangélica muito conhecida em vários países do mundo. Temos o exemplo lindo da missionária Loide Bonfim, que durante 40 anos cuidou da Missão Cauá, em Dourados, no Mato Grosso do Sul e cuja obra é um exemplo de liderança, dedicação, inteligência e compromisso com o Reino de Deus.

Desta forma, eu acredito que nossa denominação, a igreja Assembléia de Deus, a partir da 1ª Convenção Geral realizada em Natal-RN, no ano de 1930, cometeu o erro de reduzir a importância da mulher, limitando-a apenas aos serviços auxiliares como, cantar, cuidar das crianças e dirigir a oração. O escritor Raul Raiol, escrevendo a esse respeito disse que ficou tratado que no púlpito, as mulheres deveriam se conformar em apenas, poder dar um testemunho, mas, nunca pregar ou ensinar. Após acalorados debates, diz ele, a assembléia deliberou que a função de pastor é exclusiva de homens, salvo a inexistência de irmãos capacitados para esse mister.

Da minha parte, eu fico com as palavras de Paulo em Gálatas 3:28: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”. 

Em Cristo, Sandoval Juliano –  O Presbítero – 17.11.2011.

Fontes de consulta:

Revista A Seara – nº 313 – julho de 1991 – Pág. 32

Livro: 1911 – Missão de Fogo no Brasil – A Fundação da Assembléia de Deus – Autor: Raul Raiol

http://pt.wikipedia.org/wiki/Mulher_na_Gr%C3%A9cia_antiga

http://www.revistamirabilia.com/Numeros/Num1/mulher.html

http://www.icp.com.br/81entrevista.asp

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