A Parábola das Bodas – Parte 2

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QUEM É O REI DESTA PARÁBOLA?


Para que você entenda este texto, é aconselhável que leia primeiramente o texto “A Parábola das Bodas – Parte 1”

 

Unanimemente, todos, desde o mais simples leitor, respondem que o rei é – Deus. A parábola inicia-se com a expressão:  “O Reino dos céus é semelhante a um rei”. Portanto, isto é ponto passivo.
 
Mas, esta pergunta não merece uma resposta tão simples. Não basta saber que o rei é Deus, que o filho do rei é Jesus, que as bodas se referem ao encontro da Igreja com Cristo no dia do arrebatamento.
 
Eu gostaria de analisar o perfil deste rei; gostaria de saber se apenas de maneira simbólica este rei pode ser Deus ou se em uma análise mais detalhada ele permanece sendo uma figura do eterno e bondoso Deus.
 
Não teria este rei sido severo ou justo demais para com o pobre-homem da árvore? Como Deus, Ele não sabia da história de vida daquele homem, do seu sonho e do quanto queria bem àquele castelo? Não teria sido possível dar-lhe uma oportunidade para que pudesse arrumar-se e voltar para as bodas uma vez que esta não seria realizada em apenas um dia? Não teria sido justo colocá-lo apenas para fora do castelo ao invés de lançá-lo no fosso?
 
Além disto, um leitor mais crítico questionaria a “suposta bondade” do rei em conceder àqueles homens pobres o favor de serem convivas de tão importante festa. Caso os convidados ilustres tivessem comparecido, ainda assim o rei lhes teria dado aquela oportunidade? Foi realmente uma demonstração de amor ou ao rei interessava ter sua casa cheia para a festa de seu filho? E, por último, por que o rei ordenou que introduzissem os pobres quer eles quisessem ou não?
 
Sei que estou pisando em um campo minado. Podemos questionar os atos de Deus sem ofendê-lo? Até onde podemos ir em nosso questionamento?
 
Ou, por outro lado podemos entender que o interesse de Jesus ao proferir uma parábola não era que todo o contexto tivesse uma aplicação, mas, apenas o propósito central da parábola. Ou seja, o Senhor queria apenas mostrar que “naquele dia” alguns que pensam que têm direito à vida eterna não o terão. Que muitos são chamados mas poucos escolhidos. Analisar os detalhes da parábola pode nos desviar do foco e nos conduzir a interpretações subjetivas?
 
Ou, se entendermos que não devemos esmiuçar a parábola não estaríamos correndo o risco de vivermos na superfluidade da interpretação bíblica?
 
Quando eu pedi ao Senhor que me fizesse entender quem era aquele homem e Ele me concedeu uma revelação detalhada, eu conclui que o Espírito Santo quer que deixemos de ver a Bíblia apenas por cima. Existem águas profundas. Como disse o apóstolo Paulo aos Efésios, o Senhor quer que conheçamos, com todos os santos, qual seja a altura e a profundidade, a largura e o comprimento do plano de salvação que esteve oculto em Deus durante todos os séculos e gerações passadas e que só agora, através da Igreja Ele nos permitiu conhecê-lo.
 
É um privilégio do qual estamos abrindo mão, talvez por medo, talvez por descuido, talvez por estarmos permitindo o inimigo nos impedir de avançar. Desde os tempos dos profetas já havia sido dito que Deus quer que conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor – Os 6:3 .
 
Conhecer a Deus não é algo perigoso, não nos causa decepções ou desilusões. Pelo contrário, “como a alva será a sua saída e Ele a nós virá como a chuva serôdia”. O senhor quer se revelar. Quer se relacionar e aprofundar este relacionamento. Todas as vezes que pedimos Sua revelação da Palavra, de forma sincera, Ele nos concede a revelação.
 
 É óbvio que os falsificadores da Palavra também usam este mesmo argumento, pois a Bíblia não é propriedade intelectual de quem quer que seja. Ela nos permite a interpretação subjetiva.
 
É preciso sermos verdadeiros despenseiros dos mistérios e propósitos divinos. É preciso submetermos o entendimento que obtivemos ao escrutínio da própria Escritura. Qualquer que seja a interpretação, se não estiver em harmonia com a linha de raciocínio geral da Bíblia deve ser rejeitada. Para mim, texto isolado é um texto que não está na Bíblia. A Bíblia é toda harmoniosa. A unicidade da Bíblia é o que a torna diferente e especial. É a prova irrefutável de que seu autor é um só – Deus. Em Deus não há contradição. Nós é que O vemos por ângulos diferentes, sob óticas e pontos de vista diversos e muitas vezes sem a lente do Espírito. Daí surgirem seitas e inúmeras heresias.
 
Voltando à parábola em questão, quem é o rei? Porventura o rei desta é o mesmo das demais parábolas?
 
Em algumas parábolas ele aparece como rei e em outras, como senhor. Em Mateus 7 ao mesmo tempo em que ele é rei é juiz.
 
Em alguns casos o próprio Jesus é o rei e em outros o rei é Deus, o Pai.
 
Eu já disse, no início do estudo das parábolas, neste site, que não se pode engessar a interpretação das figuras numa parábola e querer aplicar a todas as parábolas a mesma interpretação.
 
Como Jesus estava explicando o funcionamento do Reino dos céus, através de parábolas, não há como não concluir que este rei é uma figura de Deus, o Pai.
 
Na parábola da vinha, tanto aparece o rei/senhor, aquele que comanda, aquele que é dono, como aparece o filho que é morto pelos maus empregados.
 
As parábolas, juntas, são revelações de parte do plano de Deus. É como um quebra-cabeça. Vai-se juntando peça a peça e vai-se vislumbrando a imagem. Cada parábola é uma peça a mais no grande quebra-cabeça que é o Plano de Salvação – Mt 13:35 .
 
Sendo Deus, o rei da Parábola das Bodas, poderíamos afirmar que este rei foi mau? – Em uma simples leitura, talvez, afirmaríamos que sim.
 
Porém, quando confrontamos o texto em questão com a revelação da pessoa e dos atributos de Deus e, conhecendo ao Senhor como temos conhecido, sabemos que nEle não há maldade alguma, nem injustiça.
 
Acontece que determinados atos de bondade praticado em favor de alguém pode ser interpretado como uma maldade pela outra parte que pensa ter sofrido o prejuízo.
 
No caso daquele senhor da Parábola da Vinha,  que contratou trabalhadores para sua vinha, Jesus disse em Mateus 20 que ele saiu ainda bem cedo, de madrugada e contratou uma equipe. Saiu depois, às nove horas da manhã e contratou outra equipe. Saiu novamente ao meio-dia, depois às três horas da tarde e ainda contratou alguns outros na última hora do dia.
 
No momento em que foi acertar as contas, começando pelos últimos contratados e chegando aos primeiros, estes ficaram revoltados. Acharam que proporcionalmente ao tempo trabalhado deveriam receber bem mais que os últimos.
 
O Senhor os repreende questionando se aos olhos deles parecia mal que ele fosse bom.
 
Veja que Jesus apresenta Deus como bom e como justo ao mesmo tempo. “Bom” porque pagou um salário que alguns nem mereciam. “Justo” porque deu a cada um exatamente o que prometeu.
 
Quanto ao rei das bodas, que em analogia é o mesmo da parábola da vinha, ele tanto pratica a bondade como a justiça.
 
Primeiro porque dá a todos a oportunidade de participar da festa de seu filho. Depois, porque cumpre o que prometera, que aquele que não trajasse vestes nupciais não desfrutaria das bodas.
 
Quem conhece a história da escolha e da aliança que o Senhor Jeová havia feito com o povo israelita e da maneira como trataram o plano de Deus, rejeitando-o por completo e por fim matando o seu Filho como prova de que não estavam em sintonia com o propósito divino, sabe que esta parábola trata disso com muita propriedade quando diz que algumas pessoas consideradas importantes haviam sido convidadas e que no dia da festa  não fizeram caso algum, desprezando o convite do rei e valorizando seus compromissos como se estes fossem muito mais importantes.
 
Em Mateus 8.11 e 12 Jesus mostra quem eram estes convidados quando diz: “Também vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e reclinar-se-ão à mesa de Abraão, Isaque e Jacó, no reino dos céus; mas os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”.
 
Os judeus, por escolha divina, eram considerados os filhos do reino. Eles mesmos gabavam-se dizendo serem filhos de Abraão
 
“Responderam-lhe: Somos descendentes de Abraão, e nunca fomos escravos de ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” – João, 8:33.
“Bem sei que sois descendência de Abraão; contudo, procurais matar-me, porque a minha palavra não encontra lugar em vós.” – João, 8:37.
“Responderam-lhe: Nosso pai é Abraão. Disse-lhes Jesus: Se sois filhos de Abraão, fazei as obras de Abraão.” –  João, 8:39.
 
O apóstolo Paulo, aos Romanos também disse:
 
“Os quais são israelitas, de quem é a adoção, e a glória, e os pactos, e a promulgação da lei, e o culto, e as promessas”;
“De quem são os patriarcas; e de quem descende o Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas, Deus bendito eternamente. Amém”. – Rm 9. 4,5.
 
João conclui dizendo: “Veio para os que eram seus e os seus não o receberam…” – Jo 1:11 .
 
De forma que esta parábola está em sintonia, sim,  com o restante das Escrituras onde Jesus faz alusão à rejeição do povo de Israel em relação a Cristo na figura dos convidados que não compareceram às bodas.
 
Quanto aos servos que foram rejeitados e ultrajados, alguns até mortos, quando foram avisar que o rei os esperava, trata-se dos profetas, que ao longo dos séculos foram enviados por Deus. É dito na parábola que “e os outros, apoderando-se dos servos, os ultrajaram e mataram”. Esta afirmação está em sintonia com o texto de Lucas 13:34 que diz: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que a ti são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta a sua ninhada debaixo das asas, e não quiseste!
 
Em seguida, o rei reage à atitude dos convidados:
 
Mas o rei encolerizou-se; e enviando os seus exércitos, destruiu aqueles homicidas, e incendiou a sua cidade”. – V. 6.
 
Não poderia esta reação do rei ser entendida como uma atitude vingativa? O rei foi justo ou justiceiro?
 
A reação do rei pode até parecer arbitrária, mas não deve ser assim entendida uma vez que a punição aos ímpios e pecadores é um princípio adotado por Deus desde sempre – Sl 75:8 .
 
O Senhor é sempre longânimo. Ele nunca pune alguém simplesmente porque errou. Apesar dos inúmeros textos que atribuem a Deus a vingança, Deus não é vingativo. Ele não é alguém que se apraz com a vingança.
 
O termo vingança que aparece na Bíblia e que muitas vezes é atribuído a Deus, por antropomorfismo, é ,na verdade, a falta de uma palavra correspondente porque o que vemos nos atos divinos é a punição e não a vingança, como no jargão jurídico que diz: “a justiça que vinga os crimes”.
 
A vingança, no sentido literal da palavra é dar à pessoa a paga pelos atos praticados na mesma moeda e sem o objetivo de ver os danos reparados.
 
A justiça prevê a punição e a referente reparação dos danos causados à vítima.
 
O justiceiro, segundo os melhores dicionários é alguém rigoroso na aplicação da lei; imparcial, inflexível, severo, justiçoso. Indivíduo que, por sua própria iniciativa ou por solicitação de outrem, e independentemente da lei ou dos poderes constituídos, supostamente repara um mal por meio de vingança.
 
A longanimidade de Deus é a prova de que Ele não é vingativo. Ele só derrama a taça da ira quando, depois de esgotadas todas as possibilidades de arrependimento, o ímpio insiste em sua impiedade.
 
Em Gênesis 15:14 a 16 o Senhor revela a Abraão que permitiria que a descendência dele sofresse por quatrocentos anos o jugo egípcio e após este período os amorreus(povo que constituía o reino egípcio) seriam julgados e isto não seria feito antes porque a medida da iniqüidade daqueles homens não estava ainda cheia.
 
Ou seja, em sua presciência, Deus sabia quando esta medida estaria cheia, não que Ele tenha determinado que ela se encheria.
 
A ira do Senhor só se manifesta depois de confirmada a maldade do homem.
 
Quando Deus tomou conhecimento da maldade dos moradores de Sodoma e Gomorra, Ele desceu pessoalmente, em forma física de um homem para confirmar o que acerca deles se ouvira.
 
“Disse mais o Senhor: Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito, “descerei agora, e verei se em tudo têm praticado segundo o seu clamor, que a mim tem chegado; e se não, sabê-lo-ei”. – Gn 18.20,21.
 
Aos ninivitas o Senhor enviou Jonas, para dar uma oportunidade, a qual foi bem aproveitada. Na opinião de Jonas, os ninivitas não mereciam aquela chance. Jonas queria vingança.
 
A história relata que tempos depois os ninivitas voltaram às práticas de seus pecados. Cem anos depois o Senhor os entregou. O castigo foi tão grande que Nínive deixou de existir na face da terra. Foram totalmente eliminados.
 
Este é o princípio bíblico: Deus é um Deus que dá oportunidades, que concede ao pecador uma nova chance. Quando Deus age duramente, é porque ao longo dos tempos muita maldade foi-se acumulando.
 
Esta parábola, que mostra de forma muito sucinta o fato, na verdade está se referindo a todo o período do Antigo Testamento. Foram inúmeras as oportunidades e os avisos dados aos judeus através da Lei e dos profetas, durante milênios.
 
Chegou ao ponto em que Deus lhes consentiu o endurecimento do coração – Lc 8:10 ; Rm 11:25 ; Mt 13:15 ;
 
“Pois quê? O que Israel busca, isso não o alcançou; mas os eleitos alcançaram; e os outros foram endurecidos, Como está escrito: Deus lhes deu um espírito entorpecido, olhos para não verem, e ouvidos para não ouvirem, até o dia de hoje”. – Rm 11.7,8
 
Com este conceito bíblico notamos claramente que o rei da parábola não foi cruel, nem tomou vingança como se quisesse tirar a afronta de sobre si. Deus é eqüânime, aquele que age com eqüidade – Ez 33:11 .
 
Resta-nos, portanto, analisar aquilo que chamei de “suposta bondade” da parte do rei quando dá aos pobres uma oportunidade para preencher uma lacuna deixada pelos que rejeitaram o convite.
 
E ainda, por que o rei ordena que ele sejam forçados a entrarem.
 
Isto nos levará a uma análise do plano de salvação, o que requer um capítulo à parte.
 
Vem comigo…
 
Em Cristo, Ev. Sandoval Juliano – 09.07.2010

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