Sobre o Divórcio – Texto III

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OS MEUS, OS SEUS, OS NOSSOS

 

COMO DIVÓRCIOS, SEPARAÇÕES E NOVOS CASAMENTOS ESTÃO MUDANDO A FAMÍLIA BRASILEIRA

 

Síntese de uma matéria publicada na Revista Veja em 17 de março de 1999, pág. 113.

           

            Tudo começou na ressaca dos anos 70, num encontro casual no Rio de Janeiro, Ricardo conheceu Viviane, apaixonaram-se, trocaram juras de amor eterno, casaram-se numa cerimônia hippie, tiveram duas filhas e viveram felizes – até que o divórcio os separou. O desfecho dessa história, diferente do enredo dos contos de fada, marca o início de uma notável mudança de comportamento na sociedade. Hoje, há no Brasil aproximadamente 14 milhões de famílias resultantes de experiências como a de Ricardo e Viviane. É uma revolução nos costumes que abalou os alicerces de uma instituição que parecia sólida e duradoura. Aquela família convencional, em que maridos e mulheres vivam juntos até que a morte os separasse, ainda é muito forte, mas está perdendo terreno numa velocidade assombrosa. Dentro de mais vinte anos, a família nuclear, constituída de pais e filhos de um primeiro casamento, será minoria no país. O número de divórcios quase dobrou no Brasil em apenas dez anos. Já são cerca de 200 000 por ano. Um em cada quatro casamentos termina em separação. De cada cinco bebês que estão nascendo este ano, um vai viver em família de pais separados antes de atingir a vida adulta.
 

A idéia de que casamentos não vão necessariamente durar para sempre é cada vez mais aceita entre os diversos grupos e classes sociais. Até alguns anos atrás, o divórcio era um estigma que marcava pais e filhos para o resto da vida. Expressões como “mulher divorciada” ou “filhos de pais separados” eram pronunciadas em voz baixa e de forma pejorativa. Qualquer comentário sobre separação era absolutamente sigiloso. A situação agora é outra. Antigamente era fácil entender o desenho de uma família. Nele cabiam pai, mãe e filhos, avós, tios, sobrinhos, primos e primas. Eram relações de parentesco que se estabeleciam uma única vez e perduravam a vida toda. A mudança nesse padrão tem resultado em novos e surpreendentes quebra-cabeças familiares. Filhos de pais que se separaram, e voltaram a se casar, vão colecionando uma notável rede de meios-irmãos, meias-irmãs, avós, tios, e tias adotivos. Filha do casamento do bancário Ricardo Albuquerque com a empresária Viviane Maciel (O casal carioca que aparece na abertura desta reportagem), a estudante Joana, de 21 anos, é um caso exemplar. Um ano depois da separação, sua mãe casou-se de novo, com o psiquiatra Israel Berlinsky, e Joana, que só tinha uma irmã, Júlia, passou a ter sete – e, entre essas, havia mais uma menina chamada Júlia. “É engraçado porque eu acabei tendo duas irmãs com o mesmo nome, Júlia”, diz. “Para explicar, sempre foi a maior confusão” Hoje, ela divide o quarto com duas dessas novas irmãs: Tamara, de 21 anos, filha do primeiro casamento de Berlinsky, e Thais, de 14, filha do segundo casamento de sua mãe com o psiquiatra.

 

O novo organograma de grupo familiar, que os psicólogos chamam de família-mosaico, é um fenômeno mundial. Nos Estados Unidos, onde os divórcios também triplicaram nos últimos vinte anos, o número de filhos vivendo com apenas um dos pais dobrou desde 1970. Na Inglaterra, as famílias não convencionais, resultantes de divórcios e separações, serão maioria dentro de apenas dez anos. Isso acontece por várias razões. A primeira, produto de revolução sexual e comportamental dos anos 60 e 70, é que as pessoas se tornaram mais objetivas e menos hipócritas em seus relacionamentos afetivos. Antes, o amor entre marido e mulher acabava depois de alguns anos de casamento, mas eles continuavam vivendo juntos, e infelizes, em nome da unidade da família e de uma suposta felicidade dos filhos.

 

            “Havia uma pressão enorme da Igreja e da sociedade para que essas regras não fossem quebradas”, observa a professora Maria Coleta Oliveira, do departamento de antropologia da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp. “A qualidade do relacionamento não podia ser questionada, mesmo que o casamento estivesse muito ruim”. Hoje se sabe que, para os filhos. É melhor viver com os pais separados que lhes dão afeto e carinho do que permanecer em famílias destroçadas. Também contribuíram para a mudança a migração da população do campo para a cidade e o ingresso da mulher no mercado de trabalho. Num ambiente urbano, em que homens e mulheres estudam e trabalham fora, é natural que novos relacionamentos se estabeleçam mais facilmente do que na época em que se vivia uma existência cheia de controles sociais no interior.

 

          Situação Estressante    A maior aceitação do divórcio pela sociedade tornou mais fácil a vida  de crianças e pais separados. Mas é ilusão achar que exista separação sem dor e sofrimento. O fim de um casamento é uma das situações mais estressantes que um ser humano pode enfrentar. Para os pais, envolve projetos de vida interrompidos, nos quais ambos os cônjuges investiram muito, em emoções, em afeto e também em recursos materiais. Para as crianças, significa lidar com emoções desconhecidas, na maioria das vezes traumáticas, como viver com um quase estranho que de repente apareceu para ficar, Ter duas casas para passar o fim de semana, entrar em contato com crianças que nunca viram e que esperam os pais, sejam amadas como se fossem irmãos e irmãs. Tudo isso é muito difícil. O poder aquisitivo da família também cai (menos 20%, em média, no caso das mulheres), segundo dados do Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade, Iets. E  há ainda os inúmeros casos na justiça de brigas por pensões alimentícias e pela guarda dos filhos.

 

            Saga de traições    A busca de um modelo ideal de família é um sonho tão antigo quanto a própria espécie. Poligamia e outras formas de arranjos familiares compõem um capítulo riquíssimo entre as experiências na história humana. A saga dessas famílias não convencionais, marcadas por traições e separações, está espalhada pela Bíblia judaica, pelo Corão muçulmano, pelos livros dos Vedas indianos e por inúmeras epopéias clássicas, como a Ilíada, de Homero. O casamento monogâmico, em que os cônjuges, prometem fidelidade eterna e irrestrita um ao outro – e às vezes até cumprem a promessa – é uma novidade relativamente recente. No mundo ocidental, por força da doutrina cristã, ele se confundiu com o conceito de família perfeita e ideal. Em muitos casos funciona. Em outros, não, como provam as estatísticas de divórcios e separações. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, não acreditava que os relacionamentos afetivos estivessem destinados a dar certo de uma vez por todas. Achava que as relações funcionavam sob uma base conflitiva e dependiam de talento (inato) e sorte. “Esse modelo idealizado de família serve apenas para atrapalhar”, afirma o psiquiatra Nosek.

 

            Como resultado da idealização da família perfeita, muitos pais separados carregam uma imensa culpa e temem que suas experiências ruins se repitam com os filhos. Expectativas irreais também ajudam a complicar novos casamentos de pessoas separadas. Estudos mostram que uma nova família leva de dois a dez anos para se tornar unidade coesa. Mas as pessoas tendem a achar que tudo vai dar certo logo na primeira semana. O processo é lento, segundo os psicólogos, e depende muito de como os pais lidam com a situação.

 

            Primeira onda    A geração que hoje está chegando às faculdades e ao mercado de trabalho viveu experiências familiares inteiramente diferentes da anterior. São os filhos da primeira onda de divórcios e separações, ocorrida com casais que se conheceram nas décadas de 60 e 70. Esses jovens estão atingindo agora a idade de estabelecer seus próprios relacionamentos familiares. Filhos de pais divorciados estão condenados a também se separar? Pesquisas mostram que isso não é verdade. Um estudo feito na Inglaterra com cinqüenta adultos filhos de pais separados revelou que dois terços dos que tinham casado mantiveram o relacionamento estável por mais de dezessete anos – índice semelhante ao de todas as pessoas de sua geração. “É claro que os filhos também terão seus problemas, mas eles jamais serão os mesmos pais”, diz o psiquiatra Leopold Nosek.

 

            Veja o exemplo da estudante paulista Maria Fernanda de Lamare, a Nanda, de 18 anos. Seus pais se separaram quando ela tinha 11 anos e duas irmãs. Seu pai, Nando de Lamare, chefe de cozinha de um restaurante recém-inaugurado em São Paulo, casou-se com a artista plástica Patrícia Magano, que tinha dois filhos de um primeiro casamento. Sua mãe, Eliane, casou-se de novo com o publicitário Frederic Fermus, que também trouxe três filhos de dois casamentos anteriores. Hoje, portanto, Nanda tem mais cinco irmãos, tomados de empréstimo nessas novas relações dos pais. Sim, ganhou mais cinco irmãos, uma Segunda mãe e um segundo pai. “Tenho família para todos os lados”, diz Nanda vive feliz com seus novos irmãos, mas não quer repetir a experiência dos pais. Ela sonha Ter uma única e estável família no futuro. “Gostaria de acertar de primeira e Ter um casamento que durasse para sempre”.

 

( Veja, 17 de março de 1999, pág. 113 )

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